(Recebi este texto no email da turma de engenharia (sistemas) da Poli, quando um colega pede adiamento de prazo de entrega de relatório ao nosso professor coordenador de estágio; e ele lhe responde enviando o texto que reproduzo abaixo e pedindo solução para o 'dilema existêncial'. Respondendo uma pergunta com outra, senti a ironia na resposta implicita. Gostei do texto que ele enviou e fiquei pensando nas coincidências das problemáticas, que, certamente, não é exclusividade do ensino de filosofia... basta ler o texto adaptando ao seu contexto adequado daquele existente nos grupos que nos envolvem...)
Título: Curso de Filosofia no Brasil: há um erro nisso.
Autor: Paulo Ghiraldelli Jr
Como podemos entrar em uma aula de ética, lermos um texto clássico de ética e, no entanto, em nenhum momento, nos questionarmos sobre nossas próprias posições, no "aqui e agora", quanto ao conteúdo ético delas?
Como podemos entrar em uma aula de teoria do conhecimento, lermos um texto clássico do assunto e, no entanto, em nenhum momento, nos questionarmos se a "teoria da verdade" que usamos no cotidiano é satisfatória ou não?
Esses dois exemplos já bastam para percebermos o quanto o curso universitário de filosofia no Brasil não visa criar filósofos, e nem professores de filosofia. Visa criar indivíduos que temem a filosofia.
Temer a filosofia é jamais colocar em xeque aquilo em que se acredita ou, talvez mais grave ainda: é nem mesmo explicitar aquilo que no que se acredita.
Crenças e desejos nossos são escondidos, e tememos a filosofia que quer que eles se explicitem e sejam julgados, do mesmo modo que o paciente de uma terapia psicanalista se revolta quanto é agarrado pela teoria, que revela seus complexos e fraquezas.
Em termos da teoria social, poderíamos, com alguma flexibilidade, chamar esse comportamento de um nome simples: alienado.
É alienado, nesse sentido, o aluno ou o professor que pode ler durante horas, por exemplo, um tratado sobre a felicidade e, em nenhum momento, fazer a pergunta: e eu, sou feliz?
É alienado o aluno que consegue fazer um prova, responder as questões e, no entanto, não se comprometer como nenhuma delas pois, afinal, aquilo tudo era "para tirar nota".
É alienado o professor que dá todo dia a mesma aula e nunca quer discutir, pois parte do pressuposto que o que aprendeu é verdade e que ninguém teve outra idéia depois do que ele aprendeu.
É alienado aquele que quer a "lição", sem saber fazer uso, para sua vida, de tal lição.
O que ocorreu com a filosofia que ela criou a alienação, ou seja, justamente a sua antítese?Podemos recuar até Platão e imaginar que Sócrates, ao fazer filosofia nas ruas, diretamente, tinha por objetivo não deixar que a filosofia fosse discutida como uma meta-atividade. E por isso mesmo ele nada escreveu. Era como se ele tivesse o pressentimento de que o futuro da filosofia ficaria comprometido, pois em vez de filosofar as pessoas poderiam começar a "tomar a lição" uma das outras a respeito do que ele escreveu. E, de fato, uma vez desenvolvida como ensino, em templos e mosteiros e não mais nos jardins de Epicuro, isso ocorreu.
E Platão, mesmo tendo escrito em forma de diálogos, talvez tenha impulsionado o movimento que veio depois, já com Aristóteles e, enfim, com a filosofia medieval – e que ainda conquista muitos hoje em dia, principalmente no Brasil.
Que movimento? O de fazer da filosofia um academicismo a mais.
Mas culpar Platão, assim, é errado. O que vivemos é algo que Platão jamais pensou que iria ocorrer. Platão viu de perto gente muito estúpida. Ele próprio se decepcionou com governantes que disseram a ele que iriam filosofar, mas que traíram a filosofia.
Todavia, Platão nunca chegou a ver de perto, mesmo, o tipo de pessoa que surgiu em nossa época, principalmente no Brasil, e que muitas vezes não se acomoda em seu lugar, que seria um curso qualquer que nada tivesse a ver com a reflexão.
Não estou dizendo, aqui, que contrariamos Kant, que dizia que o correto era ensinar a filosofar e não ensinar filosofia. Estamos aquém desse erro denunciado por Kant. O que se faz nos cursos de bacharelado ou licenciatura em filosofia é bem pior. O que se faz é o não uso da filosofia.
Lemos Sartre e ele nos coloca diante da dúvida do rapaz que não sabe se vai para a guerra ou se fica para cuidar da mãe. Mas mesmo diante de um problema assim, bastante concreto, não ousamos nem um pouco em tomar o problema para nós e, vivendo o problema, filosofarmos. Estamos impedidos de agir assim.
Não é hipocrisia, embora também seja.
É uma espécie de embotamento do espírito.
Nada que vem dos livros nos parece real, nada nos interessa.
Aprendemos a sermos assim lá na escola básica, e continuamos assim no curso superior, mesmo que ele seja de ... filosofia! Não é o caso aqui de dizer que existe o aluno ruim e o bom aluno, ou o professor que é filósofo e o professor que nem professor é.
Não é essa a questão.
A questão é mais profunda.
O que denuncio é que os cursos de filosofia criaram o aluno que "copia matéria" do quadro e que lê mecanicamente o que o professor mandou.
Ele não entende o que copia e o que lê pois ele foi impedido, desde criança, de se abrir para as "experiências do pensamento e do coração".
Não pode pensar do mesmo modo que não consegue mais fazer sexo.
Não pode amar do mesmo modo que não consegue mais ter prazer em resolver um problema de lógica.
Não pode pensar e não pode sentir.
Não é capaz de cravar experiências no mundo.
Não é capaz de arrancar sangue das próprias veias ao ler textos como o "Julgamento de Sócrates" ou o aforismo 22 de Além de Bem e Mal.
Não consegue usufruir de vivências. Nem mesmos as suas próprias. Não as tem! Está aquém da filosofia porque está aquém da vida.
O curso de filosofia, em vez de despertar tal pessoa, a premia dizendo que é assim que ela deve ser.
Ela deve ser um ... um tipo animalóide.
Ela não pode ler livros pois ela, como Paulo Freire dizia, não aprendeu a "ler o mundo".
Assim, anos e anos passam e vários cursos de filosofia no Brasil soltam para a vida alguns infelizes que foram diplomados filósofos, mas que não podem filosofar. Não podem filosofar pois não podem dizer se gostam ou não de banana, se aprovam ou não a democracia, se acham certo ou não que a experiência conduza a ciência mais que a matemática a pode conduzir, etc.
Nada disso podem dizer.
Pois não são problemas afeitos a eles.
Eles não conseguem ver em que medida a filosofia que supostamente aprenderam pode ser usada no cotidiano de suas vidas. Às vezes são estúpidos e não saem do lugar.
Mas às vezes, gente assim, até arranca um mestrado e um doutorado, e se transforma em "pesquisador de filosofia" – mas continua sem poder filosofar.
Pois o embotamento da alma é uma doença que se torna crônica.
E ela leva à morte muito cedo.
O senso comum prevalece, então, no interior da sala de aula de filosofia.
Os preconceitos proliferam, e nada é possível de ser levado para o campo filosófico. Quando alguém tem uma pergunta e quer discutir, mesmo no curso de filosofia, caso o professor descuide é possível que algum colega (ou mesmo o professor!) venha a dizer: "ah, deixa para lá, isso é filosofia". Sim, essa frase, que é comum na boca de transeuntes do senso comum, já aparece agora até mesmo nos cursos de filosofia. É o ódio à filosofia por parte dos que se matricularam em um curso de filosofia. Sim – o ódio daquilo que se escolheu fazer!
Pensar, imaginar, "pensar alto", "fazer devaneios", criar inferências – tudo isso é proibido.
E mais proibido ainda se tudo isso vier para articular o que os filósofos falaram com o que cada um ali no curso acredita.
A filosofia é posta nos cursos de filosofia do mesmo modo que a técnica da mecânica é posta para quem vai tirar carta de motorista: sabe-se que o carro tem motor, breque, que precisa de gasolina e manutenção. Mas só! O carro é o carro, o motorista é o motorista. Eles estão juntos, porém isolados. Isso é o curso de filosofia: o livro é colocado na mão do aluno, mas o aluno continua lá, isolado do livro.
Ele prefere o quadro.
Ele quer copiar.
Ele não sabe mais o que é uma aula de filosofia, ele só sabe que em sala de aula ele tem de preencher um caderno.
A relação entre o aluno e o livro não ocorre.
E o professor não consegue fazê-la ocorrer na medida em que ele, não raro, já é fruto daquele mesmo tipo de curso de filosofia. O curso em que ninguém pode pensar, que ninguém pode sentir.
Que curso é este?
É um curso para rinocerontes, advogados de porta de cadeia, padres frustrados, donas de casa cujo marido não volta pois tem amante, crianças com pelos nas mãos e, enfim, anões – anões mentais.
Ensina-se filosofia no Brasil, hoje, como se ensina Direito no Brasil: decorar a lei é tudo.
Basta decorar e, depois, diante de um crime, aplicar.
Discutir se a lei é moral ou não?
Nunca!
Discutir se a investigação do crime usou de critérios válidos ou não?
Nunca!
O ensino do Direito, que criou levas de advogados analfabetos, que infestam a nação como uma praga que só pode ser extirpada com a pulverização de cultura do mesmo modo que se pulveriza uma lavoura cheia de gafanhotos, é o modelo para todo o nosso ensino e, agora, até mesmo para o ensino de filosofia. No passado, esse ódio à filosofia era próprio de cursos muito práticos.
Nós filósofos reclamávamos de ter de lidar com pedagogos, pois eles não queriam refletir, queriam ir direto para a prática educacional.
Nós filósofos reclamávamos que o aluno de engenharia não queria mais deduzir fórmulas e nem mesmo discutir a situação energética do país, pois queriam ou tomar conta do escritório do papai ou prestar um concurso e ganhar dinheiro rápido.
Nós filósofos reclamávamos dos alunos de ... ora, nós reclamávamos de tudo.
Nós estávamos no paraíso e não sabíamos. Vivíamos querendo encontrar alunos de filosofia, jovens, achando que eles iriam conversar de filosofia conosco.
Um dia, então, nós filósofos chegamos a encontrar os tais alunos de filosofia e ... pimba! Eis que eles eram piores que aqueles pedagogos e engenheiros que criticávamos. Hoje, é mais fácil achar quem gosta de filosofar em outros cursos do que nos cursos de filosofia.
Nos cursos de filosofia é proibido filosofar.
Não vamos longe com isso.
Nosso país não vai sair do Terceiro Mundo.
O país está ficando mais embrutecido e a filosofia não conseguiu ser uma ilha.
Hoje, a barbárie invadiu até mesmo os cursos de filosofia.
Alguns professores de filosofia, desesperados, querem sair do ensino, querem deixar a sala de aula.
Eles não querem ver aquilo que amavam se deteriorar. Talvez por isso eu tenha deixado de ensinar filosofia no Brasil.
Era a barbárie que estava batendo na minha porta, e que agora, de fato, invadiu o que era nosso lar, as salas de filosofia.
Há como sair disso?
Difícil.
Nossa juventude, apesar de sido criada assistindo o "TV Colosso", que tinha o personagem "Capachão", talvez tenha se acostumado com ele, em vez de perceber que ele era para servir de contra-exemplo.
Nossa juventude, em grande parte, é lambe-botas.
Os conservadores são conservadores.
Os que ficaram na esquerda são mais conservadores ainda!
Nossa juventude está com o espírito embotado a ponto de aderir à covardia mais deslavada.
Não raro, em vez de estudar e vir desafiar o professor, nossa juventude vem nas aulas para bajular o professor e conseguir nota ou bolsa.
Isso na universidade pública.
Na particular, faz pressão, quer que o professor se submeta à mediocridade.
Até mesmo no curso de filosofia isso ocorre, um curso em que a nota seria o menos importante e o diploma menos ainda.
Todavia, nossa juventude não sabe fazer outra coisa. Ela é covarde e nem sabe que é covarde . Essa juventude, aliás, nem sabe lidar com a Internet, pois ela gosta de copiar matéria do quadro – como aquele tolo que, antes, achávamos que só existia "nos outros cursos", não na filosofia.
É claro que há indivíduos que não se encaixam nisso.
Eles existem, sim.
Mas tenho dó deles.
Caso não consigam ter algum filósofo autêntico por perto, irão amargar ter nascido em um Brasil que perdeu o rumo.
Esses poucos, caso não encontrem apoio nos poucos filósofos autênticos que sobreviveram por aí, poderão subir.
É preciso muita força para nadar contra a correnteza.
Fala Capela.
ResponderExcluirBotei seu link lá. Vejo o meu: http://www.blogdoaubin.zip.net